3° Capítulo: O senso da realidade
A minha última conversa com Mariah foi tão surreal, que não me dava conta das decisões que tinha tomado. Sair da minha zona de conforto não era uma opção, meus pensamentos me sufocavam.
Ajudar uma pessoa que se quer conheço? E pior, para encontrar a última pessoa que queria ver no mundo.
Mentir sobre a existência de Narian era como falar que ela nunca existiu de verdade, ficava pensando o que me fez ficar tanto tempo na clínica, o que poderia ter me movido a abrir mão da minha própria vida? Seria mesmo só a Narian?
Depois de alguns dias coloquei meus pensamentos no lugar, decidi que não ia sair da clínica por causa de Mariah, mas para descobrir as respostas para os meus pensamentos.
Ainda ia decidir se ajudaria Mariah fora da clínica. Ela continuava a me visitar em intervalos de duas semanas, nas conversas que tínhamos regularmente ela raramente falava sobre o grupo Narian ou sobre ela. Ela evitava falar sobre esse assunto, me questionava se ela não estava evitando para me ajudar a mentir melhor ou se ela queria somente que eu soubesse o que era interessante para ela.
Evitava me preocupar com isso agora, eram convenientes as visitas dela. Com o tempo, o senso de realidade ia voltando, me fazendo vê-la com outros olhos.
Ela já não era mais lúdica como na primeira visita, para mim era como uma amiga de longa data. Em nossas conversas ficávamos mais focados na minha história de vida, e o que eu poderia fazer lá fora, não me preocupava com esses fatos.
A cada dia que passava, a realidade caía na minha mente como uma bigorna. Agora conseguia perceber o quanto a clínica era feia, nunca tinha me dado conta do tom azul das paredes encardidas pelo tempo, nem dos estofados rasgados da sala de visitas. Os corredores pareciam mais compridos, as vozes dos outros pacientes agora eram mais altas e conseguiam interferir nos meus pensamentos, agora percebia o quanto a clínica era deteriorada.
Minha zona de conforto tinha se tornado um funil, agora os dias pareciam durar mais, não tinha me dado conta de como o mundo evoluiu nesse tempo lá fora.
Com a possibilidade de sair para o mundo real, agora pensava mais em minha mãe. Fazia dois anos que não recebia uma visita dela, não tinha me dado conta de como isso era ruim, minha mãe dever ter desistido de mim quando percebeu que já não havia mais alma nas minhas palavras. Percebi que aceitando os fatos aos poucos, o mundo em minha volta ia se expandindo.
Em um dia, numa das visitas de Mariah ela disse que falou com minha mãe, falou que a havia convencido a me visitar. Fiquei surpreso, perguntei para Mariah como ela estava. Ela não entrou em muitos detalhes apenas disse:
- Quero que você mesmo veja com os seus olhos como ela está. Mariah já tinha se dado conta de que o senso de realidade já tinha me dominado.
Dois dias após a notícia de Mariah, recebi o anúncio de uma visita, automaticamente fiquei ansioso, sabia que era minha mãe. Agora que tinha a noção do real, tudo era mais intenso e forte, fazia tempo que não via minha mãe.
A caminho da sala, dessa vez sem enfermeira. O corredor se tornava mais longo que o normal, minha ansiedade para vê-la quase me fez começar a correr.
Ao olhar para minha mãe, comecei a ficar com vontade de chorar, minha criança interior veio à tona, mas mesmo assim me reprimi, não queria demonstrar mais nenhum traço de insegurança para ela.
Ela olhava para mim também já querendo chorar, sem mesmo eu expressar qualquer traço da minha possível recuperação, ela já tinha percebido que eu não eu era mais o mesmo.
Minha primeira reação foi um olhar de culpa.
- Desculpa, mãe. Não queria ter feito você ter passado por isso. Ela começou a chorar.
- Por favor, não diga nada. O importante é que você vai sair daqui logo. Como você está? Esbocei um sorriso.
- Está tudo bem, mãe. Agora eu consigo enxergar um pouco mais à frente. Rindo carinhosamente de minha afirmação.
- Os médicos estão falando muito bem de você, falaram que talvez você só fica mais duas semanas internado. A notícia me assustou, mas não demonstrei isso para ela. Peguei em suas mãos.
- Estou tão feliz com a sua visita! As mãos dela estava bem quente, podia sentir que estavam tremendo, minha mãe tinha envelhecido significativamente, tinha cortado o cabelo bem curtinho, mais o seu perfume era o mesmo que sempre esteve em minhas lembranças.
- Que bom filho, esses dias eu estava em casa e uma doutora foi lá, ela me falou para lhe visitar porque você estava melhorando. Sabia que tinha sido Mariah, fiquei me questionando na hora se isso era algum plano dela, ela não me falou que esteve na minha casa. Minha mãe continuava falando,
chorando pequenas lágrimas de emoção.
- Saiba que o seu quarto continua o mesmo depois desses anos, eu não mudei nada. Ela parou de falar para me observar.
- Nossa filho. Você não envelheceu nada. Comecei a rir sem graça.
- São seus olhos mãe! Continuando a rir.
Nossa conversa não se estendeu muito, minha mãe demonstrava estar insegura, ela parecia com medo de que eu voltasse a minha “loucura”, ela nem se arriscou em perguntar sobre Narian.
Depois que ela me deixou, a clínica parecia mais sufocante. A notícia que ela me falou que talvez eu tivesse apenas mais duas semanas aqui, destruiu totalmente a minha imagem de zona de conforto.
Mas não fiquei tão em estado de pânico assim, porque a visita dela me fez perceber uma coisa que nunca tinha me dado conta: “Minha mãe era o meu maior motivo para voltar à vida”.
Será que Mariah sabia que seria essa a minha reação? Por que ela mesma não me disse que faltava tão pouco para deixar a clínica?
Nota do Autor
Mais uma vez muito obrigado ao Gledson K. pela revisão!
Melhor capitulo na opinião dele. Será?
Até. Abs.
Comentários
Eu qero o proxiimo capitulo logo (Y)
Parabéns ;*